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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A SUBVERSIVIDADE DO BRINCAR

Essa semana passei por uma experiência na escola a qual gostaria de compartilhar com todos, pois além de bela, trata-se da oportunidade de pensarmos sobre o fazer educativo e a importância do brincar sem regras rígidas para o aprendizado da criança.

O fato ocorreu numa sala de creche (Mini Grupo - crianças de 2 e 3 anos de idade) de uma escola pública da cidade de Hortolândia. Sala essa em que atuo como docente auxiliada, diariamente, por duas educadoras infantis.

Uma dessas educadoras está grávida e à medida que a barriga dela foi crescendo ao longo do período letivo, as crianças interagiam e perguntavam constantemente para todas nós: "Tem neném na sua barriga tia?", como se quisessem compreender a situação. Também, por vezes, comentavam: "Tem neném na barriga da minha mãe!" ou ainda: "Tem neném na minha barriga." e assim íamos cooperando com as crianças de modo que elas compreendessem e dessem significados que as satisfizessem a respeito da situação.

Porém, essa semana, brincando com as crianças, peguei uma boneca e coloquei-a por debaixo da minha camiseta, simulando uma gravidez. Mais que depressa as crianças se achegaram para mais perto e comecei a simular as dores do parto, dizendo que havia chegado a hora de nascer.

Pedi que me levassem ao hospital e me deitei no tapete que fica no centro da sala de aula. Agora, já com todas as crianças da classe em volta de mim, segurei um serrote de brinquedo que estava ao meu lado e disse que o médico iria cortar a minha barriga com um bisturi, e  então comecei a fazer o movimento de vai e vem com o brinquedo.

Em seguida, disse que o médico teria que puxar a criança lentamente pela cabeça e que, já estando a criança totalmente fora, o médico daria um tapinha no bumbum do bebê para que ele chorasse. E conforme ia relatando oralmente, ia fazendo a simulação, que foi encerrada com um choro épico de um bebê recém nascido. 

Ao termino da minha encenação, as crianças me olhavam com olhos arregalados e riam bastante. Aproveitei para perguntar para algumas delas (as que tem irmãos ou irmãs menores), se a mãe tinha tinha cortado a barriga para o irmão ou a irmã nascerem e alguns respondia que sim.

As crianças pediram que eu repetisse a simulação algumas vezes, todas devidamente relatadas oralmente e, a partir da terceira vez, elas disputavam entre si para participar ativamente da encenação, cortando a minha barriga, puxando o bebê ou então dando o tapinha no bumbum da boneca.

A brincadeira chamou a atenção das crianças por muito tempo. Depois pediram para que eu simulasse a gravidez em uma das meninas e assim eu fiz. E depois com outra, e mais outra e outra mais...até que todas as meninas tivessem passado pela experiência do "parto".

Quando terminaram as meninas, um dos meninos falou: "Agora eu tia." e então eu simplesmente destruí tudo dizendo: "Mas os meninos não ficam "grávidos", só as meninas..." e com isso a brincadeira se findou.

Eis que no dia seguinte, munidos da mesma caixa de brinquedos em mãos, quatro meninos da turma, se reuniram no chão da sala e, sozinhos, começaram a brincar de "parto", tal qual havíamos feito no dia anterior. Eles repetiam todos os passos, um a um e substituíam a criança que teria a barriga cortada e o médico a cada nova rodada da brincadeira..

Essas crianças me relembraram algo bastante valioso: Que no brincar não deve existir regras rígidas. Na brincadeira todos podem assumir todos os papéis e é justamente isso que fará com que as crianças assimilem e compreendam a especificidade dos papéis que assumem e que assumirão em nossa sociedade. Os meninos, assim como as meninas, desejavam vivenciar a experiência do parto no brincar para compreenderem melhor esses papeis e darem seus significados próprios à situação. Infelizmente, minha atitude interrompeu esse processo de apropriação mas, felizmente, as crianças superaram a rigidez dos adultos e mudaram as regras do brincar porque, afinal, AS CRIANÇAS APRENDEM BRINCANDO e, durante o brincar, TUDO É POSSÍVEL.

(Por Angélica Galvani Mir - 09/12/2014)

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